Você já teve a impressão de que os anos estão passando mais rápido conforme envelhece? A sensação é muito comum e costuma nos assombrar quando comparamos a vida adulta com a infância. Para uma criança, um ano pode parecer um período enorme, porém, na vida adulta, é comum ter a impressão de que os meses passam sem que seja possível perceber.
Isso não significa que o tempo esteja realmente passando mais depressa. A explicação está, em parte, na maneira como o cérebro presta atenção ao que acontece e registra determinadas experiências na memória.
A psicologia estuda há anos essa relação entre tempo, atenção e memória. Pesquisas indicam que a percepção da duração de um período pode mudar dependendo da quantidade de acontecimentos marcantes e de informações que conseguimos recuperar posteriormente.
Na infância e na adolescência, muitas experiências são novidade. A primeira viagem, uma mudança de escola, novas amizades, descobertas, aniversários, relacionamentos e outras situações ajudam a criar diferentes referências na memória.
Já na vida adulta, a rotina tende a se tornar mais previsível para muitas pessoas. Trabalho, tarefas domésticas, compromissos e responsabilidades podem fazer com que vários dias tenham estruturas muito parecidas, então, quando pouca coisa muda, também pode haver menos acontecimentos específicos para serem lembrados depois. É justamente nesse momento que a percepção do tempo pode mudar.
Uma revisão publicada na 'Frontiers in Psychology' analisou estudos sobre a percepção do tempo e mostrou como mudanças na rotina e períodos de monotonia podem interferir na experiência subjetiva da passagem do tempo. Entre os fatores envolvidos estão mecanismos relacionados à atenção e à memória.
Um estudo publicado em 2019 na 'Acta Psychologica' investigou a sensação de que determinados períodos da vida haviam "passado voando". Os pesquisadores encontraram uma relação entre essa impressão e a facilidade com que os participantes conseguiam recuperar memórias específicas daquele intervalo de tempo.
Na pesquisa, pessoas que conseguiam lembrar de pelo menos quatro acontecimentos significativos tendiam a perceber aquele período como se ele tivesse sido mais longo. Quando havia menos acontecimentos específicos disponíveis na memória, as pessoas costumavam ter a sensação de que aquele período teria passado mais rapidamente.
Por isso, olhar para trás e sentir que determinado ano passou muito rápido não significa necessariamente que os meses tenham sido vividos de maneira acelerada, já que a quantidade e a qualidade das lembranças disponíveis podem influenciar essa percepção.
A idade, por si só, não faz o relógio correr mais rápido. O que pode acontecer é uma mudança na quantidade de novidades e acontecimentos presentes na rotina, já que, ao longo da vida adulta, algumas pessoas passam a ter uma rotina mais estável.
Isso pode significar menos mudanças de emprego, viagens, novas amizades, mudanças de casa, descobertas e outras experiências que criam referências distintas na memória. O resultado, então, é que longos períodos podem ficar associados a poucas lembranças.
Na prática, podemos pensar que um ano com muitos acontecimentos diferentes tende a ser lembrado como um período cheio de episódios, enquanto um ano composto por semanas muito semelhantes pode ser recuperado da memória de maneira com menores lembranças.
Uma revisão publicada em 2023 sobre memória e cognição temporal também reforçou a relação próxima entre memória autobiográfica e experiência do tempo. De acordo com o estudo, lembranças que construímos sobre nossa própria vida participam da maneira como avaliamos a duração dos períodos que já passaram.
A ideia de que "o tempo passa mais rápido quando envelhecemos" é uma simplificação, uma vez que a percepção subjetiva da passagem do tempo envolve diferentes processos psicológicos e pode variar de acordo com atenção, emoções, rotina e memória.
É por isso que duas pessoas podem viver o mesmo período e posteriormente descrevê-lo de maneiras diferentes. A experiência temporal não depende da quantidade de dias que passaram, mas também daquilo que foi percebido, vivido e registrado durante esse intervalo de tempo.
Assim, quando alguém olha para os últimos anos e tem a impressão de que eles passaram rapidamente, uma parte da explicação pode estar na própria memória. Se aquele período contém poucos acontecimentos distintos para serem recuperados, ele pode parecer menor quando lembrado tempos depois.
A passagem do tempo no relógio é a mesma. O que pode mudar é a forma como o cérebro registra e organiza aquilo que aconteceu.